O maior poeta brasileiro de todos os tempos, o mineiro e, segundo reza a lenda, atleticano Carlos Drummond de Andrade escreveu um poema curto, mas denso e contuso em sua mensagem: “NO MEIO DO CAMINHO TEM UMA PEDRA. TEM UMA PEDRA NO MEIO DO CAMINHO”.
E uma Chape resiliente e focada se petrificou no caminho de um Galo demarcado por uma ressaca plenamente justificável e que, não obstante ter controlado e dominado o jogo inteiro, teve imensas dificuldades para furar o bloqueio do adversário.
Não existe jogo fácil e, tampouco, vitória garantida e antecipada. Ah!, mas a Chape é a lanterna do Brasileirão e, no primeiro turno, o Galo aplicou uma sonora goleada na Arena Condá, 4 x 0.
Nada disso importa. Cada jogo tem a sua história. O resultado final de cada partida é resultante dos eventuais méritos dos vencedores e deméritos dos derrotados, das decisões, acertadas ou não, da arbitragem de campo. das revisões ou omissões do VAR, do imponderável que porventura venha ocorrer, do talento e do insight individual de algum craque e das alterações acertadas ou não promovidas por este ou aquele time.
E quando se fala em demérito deste ou daquele time, está se falando dos erros possivelmente cometidos, da adoção de uma postura equivocada, de escolhas infelizes ou de substituições mal feitas.
Este Atlético x Chapecoense foi literalmente um jogo de linha contra defesa. Mas, a água mole atleticana tanto bateu que até acabou e o empate de 1 x 1 até que ficou de bom tamanho, pois, não só premiou a luta e a resistência do time catarinense, como também puniu o Galo pela sua incapacidade de traduzir sua superioridade em gols.
O time atleticano desperdiçou inúmeras de chances de gol. Perdi a conta das finalizações ou em cima do goleiro ou que um defensor de Chape tirou de cima de linha, além daquelas que se perderam pela linha de fundo. Faltou pontaria, cabeça fria, calma, inspiração ou volúpia? Ou um pouco de cada coisa?
Quem não faz, leva. A bola não perdoa, pune. Nos instantes finais do primeiro tempo o time de Chapecó encontrou um gol. Talvez por ter se cansado de martelar em vão, o time atleticano sofreu um ligeiro apagão e a Chape, que não tem nada com isso, se aproveitou e abriu o placar.
A bem de verdade, até que o Atlético chegou a balançar as redes catarinenses. O assistente e o VAR viram Alexander em impedimento.
“Perdoem a nossa falha”(rs, rs,rs). O Pay Per View, que é da Globo, sem querer é claro, acabou por desmontar o VAR e desmentir o bandeirinha, ao mostrar, no intervalo, durante a exibição dos melhores momentos do primeiro tempo, o lance do gol anulado do Atlético.
Não havia impedimento. Pelo menos, foi o que a imagem congelada da câmera lateral, postada na linha do impedimento, deixou mais do que claro. Pelas imagens mostradas no intervalo pela televisão, não restou nenhuma dúvida de que o gol de Alexander foi legal.
Está certa a televisão ou estão certos o VAR e o assistente? Nunca saberemos com certeza. Só restarão dúvidas e desconfianças. Fica o alerta.
Mas, independentemente disso, a verdade é que o Atlético pagou o preço devido pela falta de contundência de seu ataque e pela inépcia de seus jogadores no quesito finalização.
Claro que a ausência de um centroavante de ofício durante boa parte da partida contribuiu para a ineficiência do time atleticano em concluir a gol as oportunidades criadas.
Se teve muita paciência e rodou bastante a bola para tentar abrir brechas na defesa catarinense, faltou ao time alvinegro mais profundidade, i.e., chegar mais à linha de fundo e ser mais agudo, mais incisivo., mais decisivo e mais intenso.
Dizem que a coisa boa vem de onde não se espera. Foi exatamente de uma jogada de linha de fundo de Bernard , típica do pontas antigos, que saiu dos pés do amaldiçoado Cassierra, acionado durante a etapa complementar, o gol de empate do Atlético.
Mas, a vitória, para muitos algo tranquilo, líquido e certo, não veio. Será que a síndrome de Robin Hood, decantada por vários atleticanos sempre que o Galo tropeça em um adversário mais fraco, de camisa menos pesada ou posicionado na zona de rebaixamento do Brasileirão, entorpeceu o time atleticano?
Robin Hood era aquele herói ladrão inglês que roubava dos ricos opressores e exploradores para dar aos pobres oprimidos e explorados.
Síndrome de Robin Hood ou não, é absolutamente normal que depois de um jogo estupidamente intenso, denso, disputado, mental e emocionalmente muito pesado, que valeu uma classificação à semi-final de uma Copa Sul-americana advenha uma ressaca e que a partida seguinte que não decide nada e contra um adversário que não tem o mesmo peso, não motive igualmente os jogadores.
E mais: também ficaram claros em alguns momentos e lances que os erros, as escolhas ruins e a baixa intensidade e a diminuição de energia, se comparadas aos melhores momentos do time diante do Peixe, são também subproduto do enorme desgaste físico e mental dos jogadores, fato do conhecimento de todos os que acompanham o Atlético.
Diante disso, atuação atleticana e o empate diante de Chapecoense deixaram muitas lições para o clube, para o treinador, para a comissão técnica, para os atletas e também para os torcedores.
Se rodar o time, driblando as lesões, o desequilíbrios do elenco e o esgotamento físico e mental dos atletas já era mais que necessário, aproveitar a bem vinda parada da data FIFA para recuperar os jogadores contundidos e descansar o grupo, é algo fundamental para que o clube possa neste final de temporada enfrentar os seus desafios com alguma possibilidade de êxito.
Confesso que uma pergunta tem me sobressaltado: com que cabeças e com que pernas os atletas atleticanos chegarão nas últimas rodadas do Brasileirão, nas semi-finais da Copa do Brasil e de Copa Sul-americana e, se os deuses do futebol assim o permitirem, nas finais destas competições?
O que aconteceu em 2024 quando o Atlético chegou às finais de Libertadores e da Copa do Brasil sem pernas e mentalmente arrasado e na última rodada do Brasileirão com chances matemáticas de rebaixamento não pode ser esquecido.
Estará o Galo preparado para superar a pedras que certamente encontrará em seu caminho daqui prá frente? Estará o Atlético plenamente consciente de que todo cuidado será pouco para que ele mesmo não venha colocar pedras no seu próprio caminho?

