
Ao contrário do que a torcida do Galo cantou a plenos pulmões na Arena MRV, quando outra vez via seu time precisando reverter um 2 a 0, eu não acreditei. Confesso que a Copa Sul-Americana nunca me encheu os olhos, ela sempre me pareceu um purgatório de times medíocres competindo para ver quem era menos pior. Mesmo assim, naquele fatídico 22/11/2025, assim como milhares de atleticanos, eu também estava no Defensores Del Chaco e essa sensação ruim com a “Sula” ficou ainda mais forte.
Veio o ano de 2026, e todas as oscilações do Galo, que mais uma vez enfrentava o calvário da Copa Sul-Americana. A fase de grupos foi sofrida, com o escrete alvinegro deixando pontos pelo caminho contra Puerto Cabello, Cienciano e Juventud. O momento no Brasileiro não era dos melhores e, por um instante, na minha cabeça, fazia mais sentido ser eliminado cedo para ter um calendário mais folgado. Não foi o caso. Passamos em primeiro e arrancamos para o mata-mata.
Veio o Bragantino e, mais uma vez, a sensação de que uma eventual eliminação não seria o fim do mundo, ainda mais tendo um clássico decisivo contra o rival. Flertamos com a eliminação, mas ela teimou em não vir. Seguimos! Veio o Santos de Neymar, ou de Gabriel Barbosa, para ser mais justo! Afinal de contas, o eterno menino — da Vila ou da vida? — estava machucado (de novo) e foi desfalque para o Alvinegro Praiano. Mesmo assim, os parças do Ney fizeram o atleticano se lembrar do porquê de odiar o Estádio Urbano Caldeira. O placar poderia ter sido uma sonora goleada, mas foi “apenas 2 a 0”. Nossa senha para falar com Deus, como diz o grande Fred Melo Paiva.
Se 2 a 0 é nossa senha para falar com Deus, por que então eu não acreditei? Em parte, por egoísmo. Sim, egoísmo. Ao contrário do que aconteceu em 2024 e em 2025, quando, com muita ajuda, eu consegui desbravar as veias abertas da América Latina em busca da “Glória Eterna” e da “Grande Conquista”, mas, em 2026, tudo indicava — e ainda indica, para ser justo — que eu não teria condições de ir para Barranquilla e que ia doer para caramba ficar de fora da festa do título depois de roer os ossos em duas finais.
Apesar disso, quando os times entraram em campo na Arena MRV, tudo isso ficou para trás. Antes mesmo da bola rolar, eu já estava arrepiado com a Massa e sentindo que poderíamos viver uma noite histórica. Bernard fez 1 a 0, Reinier ampliou, Deus tinha falado com a gente e ele disse: “Aqui é Galo!”. Veio o balde de água fria. Ê, Lyanco! Reinier de novo, vai dar! Sentiu. Pra que tanto sofrimento?
O Santos voltou novo do intervalo e pôs o Galo na roda. Gabigol, sempre ele. 3 a 2 e Barranquilla ficava cada vez mais distante. Ao contrário do que acontece em Faroeste Caboclo, onde o tempo passa e um senhor de alta classe chega com uma proposta na mão, na Arena o tempo passava e a odisseia atleticana ganhava contornos trágicos. Abandonando todo e qualquer profissionalismo, larguei a área da imprensa e me dirigi para as arquibancadas, que, como sempre gosto de dizer, formam caráter.
Ali eu era apenas mais um dos 40 mil malucos cujas vidas, por um momento, dependiam apenas dos 11 atletas trajados de preto e branco e da sua capacidade de jogar futebol. No meio dos meus, eu voltei para a base (como gosta de dizer o santista Mano Brown) e, ao fazer esse movimento, me lembrei de que hoje (ontem) era aniversário da conquista da Copa Conmebol de 1992. Lembrei dos dois gols do Negrini e automaticamente veio a lembrança do meu saudoso amigo Henrique, filho do nosso herói noventista, mas que nos deixou de forma precoce em 2020. Desde então, sempre que vejo o CAM em apuros, eu peço que, onde quer que ele esteja, interfira por nós. Foi assim contra o Cruzeiro, para citar um exemplo mais recente.
Hoje eu não tive coragem de pedir nada. Apenas olhei para os céus e “disse” para o meu amigo: “Faça o que você puder.” Voltei para a tribuna de imprensa e, enquanto me dirigia para minha posição de trabalho, senti que eu tinha que ficar perto do amigo Thiago Florêncio e parei ali. Olha o Castaño, bola pro Cuello… Gol. Vamo, Galo! Ainda tem os pênaltis. Já não respondo mais por mim. Só consigo pensar que o Henrique pode muito. Vai, Delfim! De novo? Cacete, vamos passar. Bola na trave, entrou, não entrou? Gol. Quem falta para bater? Vamo, Galo! Se pegar acaba. Delfim de novo. Eu não acredito! Classificamos. Barranquilla parece mais perto.

