Eu bati muito em Paulo Bracks. Muito mesmo. Em Pedro Daniel, menos, mas também fiz críticas. Questionei escolhas, velocidade no mercado, prioridades e, principalmente, se o Atlético conseguiria construir um elenco capaz de competir em alto nível durante uma temporada tão exigente.
Por isso, da mesma maneira que me senti confortável para criticar quando entendia que o trabalho não era bom, preciso ter a mesma tranquilidade para escrever agora: Paulo Bracks, Pedro Daniel e o departamento de futebol do Atlético fizeram um bom trabalho em 2026.
É uma mea-culpa.
E os resultados, hoje, permitem dizer isso sem qualquer favor.
A primeira janela começou a construir este Atlético
A reformulação foi profunda. O próprio Bracks explicou em março que a primeira janela teve sete movimentações: Renan Lodi, Maycon, Victor Hugo, Alan Minda, Ângelo Preciado, Mateo Cassierra e Tomás Pérez. Naquele momento, o dirigente já destacava Lodi, Maycon e Victor Hugo como jogadores que haviam rapidamente ocupado espaço importante no time.
O que parecia uma janela apenas promissora passou, com o tempo, a entregar resultado.
Renan Lodi talvez seja um dos exemplos mais evidentes. Virou uma peça de enorme importância técnica e ofensiva. Até o fim de agosto, já acumulava cinco gols e três assistências na temporada.
Maycon deu peso, experiência e qualidade ao meio-campo. Também apareceu ofensivamente e marcou, inclusive, no empate que confirmou o Atlético nas quartas da Sul-Americana contra o Red Bull Bragantino.
Victor Hugo cresceu dentro do time e protagonizou um dos momentos mais importantes da temporada: marcou o gol de empate na virada sobre o Cruzeiro que colocou o Atlético na semifinal da Copa do Brasil.
Alan Minda já justificou sua contratação em noites grandes. Foi dele o gol no último lance contra o Juventude que classificou o Galo na Copa do Brasil. Até o fim de agosto, somava quatro gols e duas assistências em 2026.
Tomás Pérez foi ganhando espaço, mostrando intensidade e uma versatilidade que chegou ao ponto de ser utilizado até na construção da linha defensiva contra o Vitória. Preciado, por sua vez, aumentou o nível das opções do elenco e já teve partidas importantes quando acionado.
E sobra Cassierra.
Talvez seja o único nome daquela primeira janela sobre o qual eu ainda não consigo dizer que vingou completamente.
Mas até aqui é importante fazer uma ponderação. Ele tem cinco gols e duas assistências na temporada. O problema é que atravessou um longo jejum — chegou a 14 partidas sem marcar — justamente em um período no qual o time cresceu muito.
Ainda acredito nele. Cassierra participa do jogo, entende movimentos, consegue ajudar na construção ofensiva. Falta recuperar aquilo que define um camisa 9: o gol. Para mim, ainda pode acontecer.
A segunda janela elevou o teto do elenco
Se a primeira janela construiu a base, a segunda parece ter aumentado o potencial desse grupo.
Fred, Kevin Castaño, Léo Duarte e Thiago Borbas.
Léo Duarte ainda é uma incógnita, e não por desempenho. Uma lesão muscular na coxa direita ainda impede que se tenha uma avaliação real do zagueiro. Ele segue no departamento médico e nem entrou em campo ainda. Portanto, seria injusto classificá-lo como acerto ou erro neste momento.
Os outros já começaram a deixar suas marcas.
Thiago Borbas precisou de pouco tempo para marcar o primeiro gol pelo clube. Foi dele um dos gols na vitória por 2 a 1 contra o Vitória, em um jogo no qual Domínguez escalou uma equipe praticamente reserva.
Kevin Castaño chegou para uma necessidade clara do elenco. Antes mesmo da contratação ser concretizada, nós mostramos aqui no Canal Bica Galo como os números do colombiano apontavam para um jogador de enorme participação com bola, capacidade defensiva e construção. Pouco depois de desembarcar, já estava entre os titulares do clássico decisivo contra o Cruzeiro.
E Fred…
Fred precisou de uma noite.
Assistência para Victor Hugo. Depois, um golaço de fora da área aos 42 minutos do segundo tempo para virar o clássico, eliminar o rival e colocar o Atlético entre os quatro melhores da Copa do Brasil.
É difícil imaginar uma apresentação mais simbólica do que essa.
Bracks havia dito em julho que o Atlético não contrataria por contratar. Que, diante das limitações financeiras, buscaria oportunidades de mercado capazes de subir o nível do elenco. Olhando Fred, Castaño e Borbas entrando justamente no momento decisivo da temporada, é preciso admitir: o planejamento está fazendo sentido.
Mas nenhuma contratação funciona se o treinador não souber o que fazer com ela
E então chegamos ao Barba.
Eduardo Domínguez está fazendo um trabalho extraordinário.
O Atlético chegou à vitória sobre o Cruzeiro com 14 partidas consecutivas sem perder. A última derrota aconteceu em 24 de maio, diante do Corinthians.
Está na semifinal da Copa do Brasil.
Está nas quartas de final da Copa Sul-Americana, onde enfrentará o Santos.
E voltou para a disputa das primeiras posições do Campeonato Brasileiro.
Hoje, o Galo aparece com 36 pontos em 24 partidas. Tem um jogo atrasado justamente contra o Red Bull Bragantino. Uma vitória levaria o Atlético aos mesmos 39 pontos do atual sexto colocado e, pelo saldo amplamente superior ao do rival que ocupa a posição, colocaria o time dentro do G-6.
Mais impressionante: o Atlético lidera o returno do Brasileiro em aproveitamento, com 73% dos pontos conquistados no recorte publicado após a 25ª rodada.
Isso não acontece por acaso.
O grande mérito do Barba é ter convencido os jogadores
Muito se fala de sistema, bloco defensivo, transição, jogo direto e posse de bola. Tudo isso importa.
Mas existe uma coisa anterior a qualquer quadro tático: o jogador precisa acreditar no treinador.
E esse elenco acredita.
O Atlético atual mostra jogadores dispostos a correr por uma ideia. Atacantes voltam. Meio-campistas cobrem espaço. Laterais entendem quando acelerar e quando proteger. Quem sai do banco entra sabendo o que fazer.
Contra o Vitória, uma equipe cheia de reservas manteve o padrão e venceu. Contra o Cruzeiro, Domínguez mexeu, empilhou alternativas ofensivas depois da expulsão de Villalba e foi buscar a classificação. Contra o Bragantino, soube sofrer. Em outros momentos, soube controlar.
O time deixou de depender de uma única forma de jogar.
O próprio ge destacou recentemente justamente esse entendimento entre elenco e treinador como uma das bases do chamado “Barbabol”.
Existe um plano.
E os jogadores entenderam o plano.
Talvez essa seja a maior vitória de Eduardo Domínguez.
O Atlético acertou. E é preciso dizer
Crítica séria não pode ser uma prisão.
Se cobramos quando as coisas dão errado, precisamos reconhecer quando dão certo.
Eu cobrei Paulo Bracks. Cobrei mercado. Cobrei reforços. Cobrei Pedro Daniel.
Hoje, considero justo dizer que eles merecem crédito pelo que foi construído.
Isso não significa que todas as decisões serão perfeitas daqui para frente. Não significa que todos os contratados serão craques. Não significa que títulos estejam garantidos.
Significa apenas reconhecer algo que o campo está mostrando.
O Atlético montou um elenco mais profundo, rejuvenescido, competitivo e com jogadores capazes de decidir. A diretoria encontrou peças. O treinador organizou essas peças. E os atletas aceitaram colocar intensidade, disciplina e comprometimento a serviço daquilo que lhes foi pedido.
Essa combinação mudou a temporada.
E o que Eduardo “Barba” Domínguez está fazendo começa a extrapolar o próprio Atlético.
Num futebol brasileiro acostumado à troca frenética de treinadores, à ideia de que todo time precisa ter a bola para jogar bem e à busca permanente por soluções imediatas, o Barba está mostrando outro caminho: convicção, adaptação ao elenco, competitividade, leitura de adversário e participação real de praticamente todo o grupo.
Pode parecer forte dizer agora.
Mas eu digo:
o Barba está revolucionando o Atlético — e começa a deixar uma marca também na maneira como o futebol brasileiro olha para o jogo.
E, desta vez, cabe a mim reconhecer também quem colocou as peças nas mãos dele.
Paulo Bracks e Pedro Daniel trabalharam bem.
O Atlético está colhendo.
E eu faço minha mea-culpa.

