No já distante ano de 1966, o escritor e jornalista Sérgio Porto, usando o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, compôs uma sátira para o Teatro de Revista, em que procurava ironizar a obrigatoriedade imposta às escolas de samba de retratarem nos seus sambas enredos somente fatos históricos.
O samba de Sérgio Porto descreve como Chica da Silva obrigou a Princesa Leopoldina a se casar com Tiradentes e, como este, depois de se eleger com o nome de Pedro II, procurou o padre Anchieta e, juntos, proclamaram a escravidão. Estes e outros disparates reúnem em um mesmo contexto personalidades de épocas e lugares distintos, em condições absolutamente absurdas.
O Samba do Crioulo Doido, mais que um enredo satírico, se tornou uma obra-prima do cancioneiro nacional, imortal e sempre atual. Hoje, então, mais do que nunca.
Samba do Crioulo Doido passou a ser uma expressão usada, no Brasil, para se referir a coisas sem sentido, a textos mirabolantes e sem nexo. E, claro, inverossímeis.
Nesse período de entressafra do futebol e, mal as janelas se abrem, o disse me disse e as notícias plantadas aqui e ali, algumas surreais e outras claramente maldosas e com endereço certo, vêm dominando o “noticiário” esportivo e povoando o imaginário de qualquer aficcionado pelo futebol que, entre sobressaltos e pesadelos, já não sabe mais no que acreditar e em quem confiar.
Em relação às notícias e às coisas do Atlético, então, a coisa chegou a tal ponto, tanto na mídia tradicional, quanto nas redes sociais, que, mesmo sem a genialidade e a maestria do saudoso Sérgio Porto, mas com requintes, ora de perversidade, ora de rematada bizarrice, diversos “formadores” de opinião, compuseram o que se pode chamar de Samba do Atleticano Doido.
E o que se ouve é uma verdadeira orquestra “desarmônica”, ora estridente, ora desafinada. Um concerto prenhe de notas mais falsas que uma cédula de três reais.
Sempre que o Atlético tem pela frente jogos decisivos ou muito importantes, as redes sociais e vários segmentos da mídia convencional começam a fervilhar com um noticiário panfletário, explosivo e profundamente desestabilizador.
O circo midiático que se instala nesses momentos, quase sempre carreando e repercutindo “notícias” sem comprovação oficial e sem aquela checagem que o bom jornalismo recomenda, não só provoca aqui e ali um disse-me-disse insuportável e um turbilhão de “informações” sem lastro, como também deteriora profundamente o ambiente interno.
A bola da vez foi Cuello, o maior artilheiro do Galo nesta temporada. Segundo os incendiários, propagadores do inferno astral atleticano, o clube teria recebido uma fantástica e irrecusável proposta de 15 milhões de euros pelo atacante argentino, o que jamais foi confirmado oficialmente pelo Atlético.
Para o jogador, então, a proposta foi tão boa que ele, louco para se mandar para a Rússia, foi flagrado em uma loja comprando malas. Segundo se propalou aos quatro ventos, a pressão era tão grande que a saída do atleta era tida como mais que certa.
De repente, alguém vaza que o comando atleticano havia considerado baixa a proposta, mas o clube russo havia feito uma contraproposta que definitivamente não havia como recusar. Seria cômico, se não fosse trágico, ler e ouvir tantas pirotecnias midiáticas.
Triste foi ver gente atleticana que apostava na concretização do da saída do jogador,, seja por acreditar acriticamente que o “negócio” era inevitável, seja por não gostar do jogador, seja ainda por ‘divertir-se” e buscar explorar as reações dos galistas. Fogo amigo?
Era profundamente irritante ver vários perfis, segmentos e “formadores” de opinião não esperarem o anúncio oficial por parte do Atlético e insistirem em fazer o torcedor alvinegro a acreditar que a saída de Cuello não só era certa, como bastante interessante para o clube.
E o que falar das insossas e bizarras especulações sobre quem poderia chegar?
O Samba do Atleticano Doido, tocado em todos os ritmos e tons nas redes sociais e na imprensa tradicional, quase sempre em primeiro lugar nas paradas das fofocas, não se resume apenas às Fakenews e às “notícias” plantadas em razão de interesses vários.
Vazar para atrapalhar os negócios do Atlético ou para concretizar saídas claramente prejudiciais ao clube parece causar um prazer orgásmico.
A sedução do furo parece normal para o jornalista profissional mas, para dublês de jornalistas e pseudos comunicadores, é triste, muito triste. Patético, até.
Dominados por um anseio incontrolável de busca de reconhecimento, audiência, seguidores e cliques, diversos perfis parecem não se dar conta de que o que fazem, ora acaba colocando em risco possíveis contratações, ora desestabilizam séria e até irremediavelmente o seu clube do coração.
Há ainda quem se indaga sobre como surgem estas informações. Vazamentos indiscriminados? Artimanhas de empresários? Desvio de foco? Tudo isso é possível? Infelizmente sim. Seria uma prática inédita? Temo que não.
Silente, o Atlético apenas contribuía para que as especulações atingissem níveis bastante temerários, enquanto dentro de campo o time, já desgastado física, mental e emocionalmente como é sabido e ressabido, começou a mostrar se ressentir de tudo isso e, em consequência, passou a ver seus problemas se agravarem.
Duvida? As atuações e as derrotas sofridas para São Paulo e Santos são auto-explicativas, méritos dos adversários à parte. Será coincidência o fato de que nestes dois jogos aquele time coletivamente forte, resiliente, defensivamente consistente e ofensivamente contundente não tenha entrado em campo?
Claro que a contusão de Everson tem um peso significativo e inescondível nessa queda do time atleticano. Porém, quando mais precisava de tranquilidade e trabalho para manter o foco, clube, jogadores, comissão técnica e torcedores foram sacudidos por esse diz que diz, esse zunzum irritante e destrutivo.
O Atlético vinha em franca evolução. Ainda que a quebra de uma invencibilidade seja inevitável e que as oscilações sejam naturais, não há como desprezar os efeitos nocivos e demolidores desse disse-me-disse irritante e enlouquecedor.
Ao final de seu “Samba do Crioulo Doido”, o genial Stanislau Ponte Preta, alterego de Sérgio Porto, ironizou a glória alcançada por dois personagens outrora poderosos na história do Brasil: Dom Pedro II e Dna. Joaquina. É que o primeiro tornou-se nome de uma estação ferroviária e a segunda de uma linha de trem.
“Assim se conta essa história
Que é dos dois a maior glória
Da. Leopoldina virou trem
E D. Pedro é uma estação também”
“O, ô , ô, ô, ô, ô
O trem tá atrasado ou já passou”
Aqui eu pergunto e provoco: está tudo perdido na Sul-americana? Ainda não. É muito difícil reverter? Sim. No futebol tudo é possível. Da parte do clube é preciso blindar o elenco e cuidar para que ele recupere a confiança que parece esvair novamente.
E quanto a vc, atleticano? Até quando vc, na ânsia de ver seu time alcançar a glória que tanto deseja, vai ficar na estação digital, preso nas mirabolantes histórias que lá pululam e sem saber ao certo se o trem atleticano está atrasado ou já passou? E pior: vendo o Galo perder o trem da história sem conseguir reagir e jogar junto como só vc sabe.

