De competição em competição o girar a chave é práxis mais que comum. É obrigatório e vital se se pretende se manter vivo em todos os torneios em disputa.
Enquanto a Massa gargalha, descarrega emoções e sentimentos reprimidos, experimenta uma sensação de alívio e de renovação da alegria, do prazer e do privilégio de ser atleticano, o clube, como alertou o CEO Pedro Daniel, já virou a chave.
A vitória do Galo no jogo de volta pelas quartas de final da Copa do Brasil não rendeu ao Atlético apenas a classificação para as semifinais e o retorno financeiro decorrente.
Quiseram os deuses do futebol que, depois de três anos da inauguração da Arena, esse fosse o jogo mais emblemático do clube em sua nova casa até agora. Pela vez primeira, a Arena transformou-se num caldeirão fantástico e infernal.
E não houve como esconder que o rival azul sentiu e muito a imensa e asfixiante pressão a que seus jogadores e comissão técnica foram submetidos.
Também não houve como disfarçar e ocultar o forte incômodo que isso causou a gregos e troianos, cruzeirenses e não cruzeirenses que não gostam do Atlético ou que, por interesses vários, querem o seu fracasso.
O ex-atacante Marques, o Xodó da Massa, hoje comentarista da Rádio Itatiaia foi cirúrgico ao reconhecer a dimensão desse jogo para o Atlético.
Do alto da experiência de quem vestiu o manto sagrado e viveu de perto e intensamente esse clima ímpar fruto dessa simbiose mágica entre o Galo e a Massa, o artilheiro do milésimo gol do Atlético em campeonatos brasileiros, festejou a restauração da sinergia mítica entre torcida e clube, no seu entender e de milhões de atleticanos, a essência e a natureza desse Gigante preto e branco.

Por isso já escrevi um sem número de vezes e vale à pena repetir que, não sem razão, a Massa atleticana passou a ser tida aqui e ali torcida como a mais argentina deste imenso Brasil e, para os adversários e o sistema que comanda o futebol brasileiro, a mais temida do futebol brasileiro e o Galo o grande inimigo a ser batido.
Um artigo do bom jornalista, escritor e ex-diretor de jornalismo da Globo, já falecido, Armando Nogueira, teria viralizado estupidamente se naquela época já existissem as redes sociais dos tempos atuais. Mas, impactou suficientemente e, também, cumpriu o seu papel.
Nogueira exaltou a força da Massa, que para ele era a mais apaixonada e visceral do país, e comparou o Atlético ao elefante, o animal que só não era o rei dos animais porque desconhecia a força que tinha.
Particularmente, não tenho nenhuma dúvida de que os leões do futebol brasileiro tomaram o artigo de Nogueira como um alerta: aquele elefante preto e branco tinha que ser abatido e jamais poderia conhecer a força que tinha.
Por outro lado, assim como as florestas, as savanas e as reservas naturais passam por transformações nem sempre naturais e sim em razão do mal trato dispensado pelo homem, e, em consequência, os animais e as matas padecem e, por vezes até são extintos, no futebol não é diferente.
Muito maltratado ao longo dos tempos por gestões caquéticas que sempre o expuseram e fragilizaram ante os mais diversos ataques de seus inimigos, o elefante atleticano mostrou-se bastante combalido em boa parte desta temporada, resistiu bravamente e agora, diante de seu mais tradicional rival, coroou uma evolução estoica e espetacular de seu futebol sob o comando Barba, ao resgatar a força e a magia da atleticanidade em toda a sua grandeza e esplendor9.
O Atlético não é apenas um clube ou um time de futebol. É um complexo sistêmico, no qual sua massa torcedora cumpre um papel fundamental.
O hino do clube, composto pelo grande e saudoso Vicente Mota sintetiza em seus versos esse amálgama clube/torcida, até então indissociável:
“Nós somos do Clube Atlético Mineiro
Jogamos com muita raça e amor
Vibramos com alegria nas vitórias
Clube Atlético Mineiro
Galo Forte vingador”
“Vencer, vencer, vencer
Este é o nosso ideal
Honramos o nome de Minas
No cenário esportivo mundial
Lutar, lutar, lutar
Pelos gramados do mundo pra vencer
Clube Atlético Mineiro
Uma vez até morrer”
“O nosso time é imortal
Somos o orgulho do esporte nacional”
Além do plural que define o coletivo, a Massa, que vibra e joga junto com o time, o hino fala em orgulho e honra, crava a missão do Glorioso que é vencer e lutar pelos gramados do mundo, afirma que o nosso time é imortal e que somos Clube Atlético Mineiro uma vez até morrer.
Isso explica o Eu Acredito. E explica também o que está por trás das campanhas que, como já ocorreu no passado, defendem a divisão de torcidas nos clássicos.
Não, definitivamente não. Sou contra a divisão de torcidas na Arena, cuja capacidade já é limitada para o tamanho da Massa atleticana.
Por que concordaríamos em acabar com o nosso caldeirão? A Arena é nossa, é a nossa casa, é o nosso território, é a nossa panela de pressão.
Além disso, quem vai pagar pelos prejuízos das depredações ocorridas no setor de visitantes?
Chave virada. Agora é o São Paulo pelo Brasileirão, depois será o Santos pelas quartas de final da Copa Sul-americana. E depois é depois quem mais vier.
A partir de agora é continuar mantendo o foco, tendo no pensamento a compreensão de que, quanto mais as competições se afunilarem, todo o cuidado ainda será pouco.

